fevereiro 17, 2015

Os relógios que Jodorowsky perdeu eram aqueles que Dali via na areia

O filme Duna, tal como projectado e idealizado por Jodorowsky, foi o maior filme de todos os tempos sem no entanto nunca ter visto a luz do dia. Mas a verdade é que é na escuridão que a grandeza se move e é nas grandes inexistências da história que se definem as maiores certezas. Leva-nos a perguntar quantos projectos não terão ficado na gaveta dos grandes estúdios por motivos secundários à própria criação ou arte...
Talvez o fracasso de traduzir em matéria a ideia conceptual e espiritual de Duna represente aqueles que são os verdadeiros limites do cinema. Através do exemplo de Duna, chegamos à conclusão de que a expressão do intelecto, a que chamamos arte, mais não é do que o produto do possível e que está tremendamente condicionado pelo pensamento dominante e politicamente correto. Mas não só. Pôr em prática um projecto como o de Duna, mantendo-o da maneira e fiel à visão inicial de Jodorowsky, é uma coisa tão maravilhosamente irrealista como querer abolir a fome e a guerra do mundo. É possível idealizá-lo mas difícil de implementar. O problema é sempre o mesmo, o de que é o Homem, com as suas virtudes e defeitos, que está responsável por pôr em prática os seus sonhos e é durante essa tentativa de concretização que se vê confrontado com os seus demónios e fantasmas que mais não são do que fruto da sua racionalidade. Claro que esta condição nunca será impeditiva para o ser humano sonhar que foi o que Jodorowsky fez, sonhou surrealiazando de forma possivelmente tangível. Seria mesmo ele capaz de o fazer..? No fundo, ele queria fazer uma coisa muito simples, queria fazer o maior filme de todos os tempos, juntando à sua volta as pessoas mais talentosas e geniais do mundo, os tais guerreiros espirituais oriundos de vários quadrantes artísticos, para pôr em prática o mais ambicioso dos projectos e a verdade é que conseguiu chegar a eles e convencê-los disso, que eram guerreiros da História. Um Dali Imperador, Welles como barão, Jagger ou Gloria Swanson como umas divas a compor o set, desenhado por Giger e Moebius, escrito por O'Bannon e os Magma e os Pink Floyd a tornar tudo numa loucura psicadélica... com certeza o mais grandioso e audaz filme de todos.
Ficaremos sempre com a dúvida sobre que resultado final teríamos se Hollywood estivesse disposta a pagar um filme de vinte horas, mas uma coisa sabemos e que ficou provada nos anos seguintes: a de que Jodorowsky contribuiu decisivamente para abrir mentalidades e alargar os horizontes da ficção cientifica. Não ter sido feito este filme fez com que os outros todos se fizessem em seguida, com certeza com uma maior dose de pragmatismo e realismo, mas que sem a centelha de genialidade visionária de Jodorowsky não teriam sido a mesma coisa.


janeiro 23, 2015

Os amantes da ponte nova

Tão puros são os silêncios e as danças na ponte, cada maldade posta na parte de quem sofre na cidade. Tomara tudo ser tão lúcido como a noite em que na escuridão os espelhos correm no rio e os fogos na claridade espalham um pouco do deslumbre de outros tempos.
Amar é um descontrolo sem fronteiras nem horizonte mesmo quando se incendeiam as paredes com o teu nome. Toda a libertação e a desgraça dos amantes, todo o desapego cruel das formas comuns de amar, toda a timidez e a euforia do amor, num filme apenas.


janeiro 19, 2015

O homem-pássaro e o super realismo sem grande coisa para recordar

Ao longo destes últimos tempos pouco tem sobrado para ver cinema bem como para outras derivas. Mas agora que as coisas vão entrando nos eixos,os filmes vão também ocupando maior lugar no meu tempo. Não fosse o meu trabalho gravitar à volta e sobre o cinema não aguentaria a ressaca. Àqueles que me liam, o que posso dizer é que estou de regresso mediante as possibilidades em conciliar a recente paternidade, a vida profissional e a publicação neste e noutros espaços. Não deixa de ser curioso, mas passou praticamente um ano desde a última vez que publiquei e o último filme de que aqui falei, Under The Skin, continua a ser o melhor filme que vi desde então...
Ora,vi Birdman com aquela desconfiança que os consensos naturalmente me despertam. E a verdade é que essa desconfiança tinha razão de ser. Na minha opinião assim dita. Será Birdman um clássico exemplo de um filme consensual. Excelentes actores, um discurso fácil de assimilar, a indumentária trágica e cómica de uma narrativa prestes a explodir em deslumbramento surrealista, enfim um produto cheio de profundas reflexões sobre os tempos que correm e, para as massas, movidas a placebo, de uma grandiosidade simples que nunca sabem muito bem explicar. Haverá ainda aqueles que suportam-lhe a qualidade nas interpretações, nomeadamente a de Michael Keaton, com razão. Mas talvez esta seja a única razão para ver um filme que, embora seja diferente no aspecto de trazer de volta um pouco do cinema de verdade, não consegue disfarçar um fracasso de fundo que é vincado na critica simplista meio metida à pressão, como que de lugar-comum, à sociedade em geral e ao meio artístico em particular, através de uma profundidade sofrida que é conferida pelo acting de Keaton. A partir deste statement do filme, é interessante concluir o crescendo da esquizofrenia que vivemos. Somos seres cada vez mais críticos e conscientes dos mecanismos automáticos do sucesso, através dos novos media, redes sociais e afins, mas por outro lado estamos cada vez mais dispostos a aceitar que todo e qualquer produto sobre daí, que daí venha, onde habita, sem margem e absolutamente integrado nessa "rede", tome conta das nossas vidas. Não mais do que isso. Nessa medida, precisamente, foi preciso Inarritu estar mais "alinhado" para estar mais "dentro" da opinião dourada e assim projectar-se com Birdman para um outro nível.
Nota para a filmagem do plano em longa sequência, em que já vi algures escrito, falsa, com cortes subtis, mas com certeza! A questão não é essa. A questão é que esta opção de filmagem é servida para reforçar a sensação de labirinto onde estamos metidos e mostrar a caótica certeza dos corredores da Broadway. Essa será porventura a característica mais interessante do filme, não a técnica em si, mas a sensação que nos desperta e para onde nos leva, a de cansados num labirinto, levados ao enjoo, no estreito lugar onde todos se cruzam e ninguém se encontra.


maio 13, 2014

Afinal o cinema está debaixo da pele

O cinema não é mais do que a prática da originalidade estando por certo sempre ancorada na estimulação não linear dos sentidos. É este o cinema que nos acelera a batida, que nos envolve por dentro, que provoca o medo e devolve a angustia de quem por fim não sabe bem o que acabou de ver. E este é o filme, este é então o cinema de que mais gosto e que afinal estava aqui tão perto, como que debaixo da pele.
Alternativo, estimulante, composto, delineando a estranheza de uma tentação extra-terrestre que só podia ter corpo numa das terrestres mais belas, Scarlett Johansson. É logo desde o inicio que somos conduzidos para uma experiência nova onde nem cabem as referências a Kubrick ou Lynch tão eternos como esse passado e que aqui Glazer transforma em contemporaneidade através de um trabalho original, tão fino como denso, um pleno de suspense e terror de uma industrialidade vinculada ao corpo e ao som rasgado da banda sonora que ajuda a conferir grande intensidade a esta criação. É na repetição desses sons e dos caminhos que levam as vitimas humanas ao labirinto isolado e desnudo da predação, que está espelhado o toque de génio do realizador, tão imerso numa substância estranha que se define no esplendor incógnito de uma trama de erotismo e morte, sem prazer e sem gritos, de poucas palavras e um rito sempre igual mas cheio de objectivo. Atingir o objectivo em Debaixo da Pele é então um exercício feito quase sob hipnose, de forma meio delirada, surrealista, mas em simultâneo ligada à identidade de um espaço familiar. É interessante todo o cenário, cheio de propósito, um subúrbio escocês, como que no fim do mundo, um mundo perfeitamente esculpido às necessidades da sobrevivência extra-terrestre através da aniquilação da solidão masculina, ora muito viril e ignorante, ora carente por distância e exclusão, o que faz por, no fim, mostrar ao alien o que é a humanidade e que é por um lado protectora e sensível, mas por outro, ofensiva e abusadora.
Filme do ano, independente, independentemente do que digam, esta é a nova ficção cientifica do século sem grandes artifícios ou artimanhas espaciais, um pedaço de cinema magistral sem defeito que se aponte ou qualidade que se consiga verbalizar na perfeição. Enfim, um objecto intimo e permanente tal o sangue que nos corre a todos por debaixo.

fevereiro 28, 2014

Uma grande beleza

É bela a ideia de ver deitado o mar no embarque para a história. Durante mais de duas horas fui romano ou como Jep um mundano, rei da mundanidade. Que sonho é este o da mundanidade? Haverá pois na decadência da sociedade o melhor poema ou quadro que se possa fazer. Haverá sempre no beco mais sujo o mais perfeito cruzamento com a memória, esse espelho de reflexos que um dia couberam no tempo passado e que eternamente resistem à passagem. Haverá sim na degradação da expressão intelectual uma fonte inesgotável de palavras ocas que gritam aos sítios por uma revolta. Haverá nesta selva selvagem de ruínas as penumbras capazes de nos salvarem. Jep deambula por entre os espaços como se fosse um morto-vivo, como se pairasse trazendo o último julgamento da humanidade por mais cruel que esse seja. Jep percorre tudo, tão vivo e tão morto em toda a sua mobilidade como as obras primas revisitadas e cheias de imortalidade. Roma será certamente uma das derradeiras cidades simultâneas em todo o mundo, onde a história imutável cruza-se todos os dias com a volátil mundanidade que dirão decadente mas que é, por outro lado, inevitavelmente libertadora por clarificar o desígnio da actualidade, mesmo se tal conclusão remeter para uma profunda desilusão e desespero. Cada plano traz no focus da sombra de todas as pessoas uma melancolia plena cheia de presunção não mais do que plástica e por nada inocente na sua composição. A Grande Beleza, uma das peças contemporâneas mais completas da arte do filme enquanto produto de uma filmagem, de uma visão erudita e rupestre também, cheia de espírito e estilo europeu que no seu decorrer acaba por fazer uma inteligente critica aos dilemas e contrastes da sociedade deste tempo.

fevereiro 19, 2014

A nova ficção científica de Ridley Scott

parece resumir-se a desfiladores de estilo de duvidosa moda, gangsters implacáveis, decapitações variadas a pé ou a alta velocidade, a tradicional e trágica história do amor maior, a polivalência capilar de Bardem, contos sexuais e outras histórias menores que só servem para agudizar a dor da passagem dos minutos e no meio de tudo isto reflexões intelectuais de pseudo alto gabarito, improváveis e desconcertantes, negativamente com certeza. O Conselheiro. É isto a nova ficção cientifica de Ridley Scott, o génio criador ou recriador do género para cinema. Claro que a ficção científica é chamada a este texto como provocação porque a verdade é que há muito que o realizador deixou este campeonato. É verdade que depois de ressuscitar o alien com a prequela Prometheus voltámos a ver um pouco daquilo que deu o nome a Ridley Scott muito embora a qualidade desse filme mereça também ser alvo de critica. No entanto foi sol de pouca dura pois apesar de todas as noticias que se seguiram ao lançamento de Prometheus acerca da continuação da história, vemos que todas elas serviram única e exclusivamente ao marketing do filme pois parece que nada está ainda convenientemente projectado e mesmo a já mítica recuperação de Blade Runner, para além de pronunciar-se como fiasco, parece ainda uma coisa longínqua de se concretizar no tempo de Scott dadas estas variações duvidosas. O talento de Ridley Scott é conhecido e reconhecido mas infelizmente no que à ficção científica diz respeito não faz nada de original, ou seja, nada que não seja baseado nas obras-primas que deram inicio à sua carreira e mesmo todos estes dramas, thrillers e biografias que vêm preenchendo a sua carreira, apesar de terem boas produções e em alguns casos até cumpridores face àquilo a que se apresentam, revelam-se no final apenas como filmes não mais do que banais que não acrescentam nada de novo ao cinema deste tempo. Com O Conselheiro, Scott regressa então a este registo, às histórias do mundo, dum mundo real mas muito aparente, sem grande jeito à boa maneira do seu irmão Tony já falecido. História mal contada, aos tropeções, filme longo demais, demasiado, excessivo de estilo e sem design de forma, lamentável e para esquecer depressa.


fevereiro 12, 2014

A vulva que derivou von Trier para um mesmo caminho

Quando às tantas no segundo capítulo Joe refere-se a uma das histórias de Seligman como a mais desinteressante que lhe contara até aí, já era evidente que não só essa história em particular mas também o filme começava a tornar-se geralmente desinspirado. É inevitável trazer a dúvida se esta versão cortada para as salas será muito diferente da versão completa e não censurada, a qual é assumida pelo realizador como sendo a definitiva do autor, mas a forma como o filme foi montado para se mostrar ao grande público acaba por afastar-nos de uma análise mais global do tipo filme-único, não fossem também as diferenças gritantes que encontramos do primeiro para o segundo capítulo.
Se na primeira parte Lars von Trier ousou com gosto explorando a perfeita história ninfomaníaca de Joe até chegar à idade adulta, já a segunda parte, encarregando-se de dar seguimento à perversão doentia da personagem, mais não afirma do que a sua decadência, a de Joe e a do próprio filme. Quero acreditar que era bem possível dar continuidade à inocência selvática da jovem Joe encarando sem rodeios o óbvio desencanto que trás a maturidade em qualquer circunstância, mas a verdade é que revelou-se mais do que evidente que a transição da idade capitulada no filme foi tão cruel para esta obra como o é para a própria vida e admitamos que há nisto uma grande coerência. O problema é que, apesar de reconhecer o génio de Lars von Trier, tenho sérias dúvidas de que está nesta coerência coincidente o fundamento para a degradação do filme. A verdade é que a segunda parte, como que partindo literalmente a força matriz que elevou a primeira, mais não faz do que expor sem gosto o progresso natural da regressão ao fim do mundo sexual. A forma chocante com que é mostrado este confronto com o presente ali sujo pelas telúricas experiências etéreas do orgasmo aos homens perigosos de desconcertantes vazios intelectuais, apenas faz o debate de Ninfomaníaca estéril e histérico, simplesmente provocador e tantas vezes sem grande nexo narrativo embora sempre esteta na sua forma. E assim, infelizmente desinspirado, tudo o que tinha de cativante na primeira parte se desmorona  na segunda através de lugares comuns feitos de sexo barato e deslavado, um manancial de todas as temáticas que fazem o tabu e a polémica e que se expõem depressa na chocante erecção ao ritmo da tradicional história das crianças no parque ou no nó vaginal descortinando o prazer através do espancamento passando ainda por uma incompreensível referência a Anticristo. Mais lamentável é chegar ao fim do filme e confirmar todo este desgaste cansado com a absurda e definitivamente previsível punch line do confidente Seligman que deu assim o pretexto ideal para Gainsbourg fugir do filme e porventura até libertar-se assim da já longa parceria com o realizador.
Apesar de tudo e no entanto, este é um filme que vale a pena. Referência justa ao despudor dos actores e a sempre conseguida integração de temas da música clássica que oferecem à peça os contrastes necessários à fortaleza da dialéctica mesmo que duvidosa em alguns momentos. Lars von Trier é dos únicos que actualmente tem a capacidade de exercer desafio a quem não se coíbe dessa tentação que é ser desafiado por ele. A sua obra continuará com certeza no trilho desconcertante, sempre muito plástico e muito visceral em simultâneo e sempre muito provador mesmo que com falhas e abusos retóricos desnecessariamente excessivos motivados quiçá por uma necessidade de afirmação face ao status quo da industria.

janeiro 28, 2014

Ela

Amor,
ontem vimos um dos melhores filmes da nossa vida. E já vimos centenas de filmes juntos e já sentimos por vezes tudo. Mesmo assim. O cinema nunca nos deixará de surpreender. O melhor é mesmo quando ficamos sem palavras, em que só um beijo seca no fim as lágrimas ficando depositadas ao sabor da saliva e quando ficamos assim sem saber o que dizer perante o silêncio deste presente. E há tanto presente no mundo, uma infinitude de coisas simples ou mais brutais que nos ajudam a compreender a felicidade em torno daquilo que esperamos continuar no futuro, nem que seja no milésimo de segundo seguinte e no seguinte e no seguinte... Se há uma ponta de egoísmo em nós quando projectamos coisas na nossa vida que pensamos ser as melhores independentemente de terceiros ouvindo apenas o que queremos ouvir, falando apenas quando queremos dizer alguma coisa e sentindo quando achamos ter a melhor disponibilidade para sentir, por outro lado é inegável que estamos munidos de uma generosidade maior por, no limite, decidirmos em função do outro e assim apaixonarmos-nos através desta luta eterna entre o que somos para nós e o que queremos ser para outra pessoa ou ter dessa outra pessoa. No fundo, todos procuramos a melhor forma de sermos felizes, nem que seja por imagens, nem que seja por ideias e vivê-las faz-me bem, ainda para mais tendo-as à pele que toca assim a tua. Talvez a principal razão de todas as zangas do universo esteja na falta de balanço, na perda de equilíbrio que tem na sua origem estas batalhas interiores, quase sempre perdidas à partida não deixando por isso de valer a pena serem travadas. Esta vale a pena, digo-te. É verdade que quando crescemos vamos deixando algumas coisas para trás, coisas que dão lugar a outras, outras que dão lugar a novas. Há em nós certamente um esforço grande em encarar as alterações da vida e aceitar as novidades que vão aparecendo por isso desculpa se tem alturas em que não lido bem com algumas coisas e me esqueço do quão bom é ter alguém tão importante na minha vida, como tu, alguém que cuide de mim, que me acaricie à noite e que me conforte ao longo do dia com o saber de estarmos ligados pela magia do pensamento. Será pois isto o amor, eu e tu, pessoas individuais de realidade que se ligam todos os dias e que vivem na certeza de que um dia hão-de morrer nunca uma para a outra, mas sim uma com a outra.
O teu,

janeiro 10, 2014

Não vão ser precisos 12 anos para ganhar um óscar

Quando o filme acabou não pude deixar de sentir uma sensação agri-doce dentro de mim. Os meus olhos e o meu coração estavam embargados com o aquele final e com o que tinha acabado de ver pois por um lado fiquei com a certeza de que tinha acabado de assistir a um bom filme, um bom filme em termos técnicos, de exploração da história, na interpretação dos actores. Mas por outro lado, após secar as emoções fortes que me despertara esta história, apercebi-me que essas mesmas emoções eram também o sinal de que, com aquele filme, tinha presenciado a viragem de ciclo de um dos realizadores mais promissores do cinema.
Para a crítica com certeza que 12 Years a Slave ficará como a afirmação de Steve McQueen no mundo da realização e que será com justiça consagrada nos prémios que se avizinham. Na minha opinião, não pode ser de outra forma, mesmo não tendo visto ainda aqueles que, juntamente com este, são apontados aos prémios. É um filme claramente para ganhar e dirá a parte crítica da crítica que esse é o problema. No entanto, há aqui que confessar que, à luz do presente, é sempre um pouco difícil aceitarmos estas evoluções dos realizadores que são sobretudo marcadas pelos meios de produção que vão tendo à disposição à medida que fazem as suas carreiras e que lhes permitem executar projectos de maior dimensão e ambição. Mas independente dos meios, eu quero acreditar que Steve McQueen fez o filme que queria fazer baseado numa história a que não conseguiu ficar indiferente. Se os meios de produção desvirtuam ou condicionam a liberdade criativa, quero acreditar que neste caso essa pode não ser uma verdade assim tão absoluta se pensarmos que, como em tudo na vida, existe sim uma adaptação face às diversas circunstancias, a própria mutação da personalidade num mundo global cheio de desafios e que aqui teve o propósito de fazer justiça à história incrível de Solomon nesse pedaço da História, desafio este que foi concretizado com seriedade e qualidade inquestionáveis.
Embora desiludido por ver partir esse realizador que fez Hunger ou Shame, sem dúvida filmes mais independentes, mais autorais, de complexidade mais perturbadora, de guerrilha silenciosa, urbana e soturna, este consensual filme dá a garantia de que um grande realizador está a trilhar o seu caminho com a segurança daqueles que sabem o que estão a fazer.



janeiro 07, 2014

Quando os velhos são apenas trapos

Por vezes pergunto-me se o Robert De Niro ao aceitar entrar nestes filmes quer mesmo deliberada e voluntariamente ridicularizar aquilo que no passado conseguiu fazer. O envelhecimento pode revelar-se um drama para qualquer actor, como para qualquer pessoa, pois já não haverá nesta fase da vida a mesma vitalidade para prosseguir com uma carreira de sucesso da forma como De Niro a construiu através dos filmes e personagens memoráveis que fizeram dele um dos mais geniais actores que o cinema já viu. Ainda assim, nestes tempos que correm, De Niro não deixa de surpreender pela negativa a cada filme que aparece. Estes filmes são maus demais e com certeza que esta parte da sua carreira não ficará para a história.

janeiro 03, 2014

Pelos caminhos largos da reflexão

Imperfeita a arte da entrevista. No entrevistado há sempre aquela sensação de que fica a faltar algo por dizer e no entrevistador a certeza que existem sempre tantas outras coisas por perguntar. Ainda assim, nesse exercício de pensar o cinema para além dos filmes ou, se quisermos, por outro lado, reflectir o cinema tendo por dentro o filme acima de tudo, aqui fica uma tentativa de dar resposta ao entendimento que faço sobre a minha forma de olhar o tema tendo por base as perguntas que me foram colocadas.
Aqui fica o caminho.

dezembro 10, 2013

A Odisseia no Espaço

Foi na Pré-História que se colocaram os primeiros desafios ao Homem que tinha na Terra o seu único universo e não será ficção julgar que a Humanidade fez-se para o futuro a partir do momento em que o Homem descobriu a tool para conquistar e defender o território e para dominar o outro. Só a dominação pela força permitiu ao Homem evoluir-se ao longo dos tempos adquirindo a capacidade para dar o salto no tempo e conhecer novos mundos à medida que o meio o ia transformando também e que está bem reflectido no filme através dos vibrantes entardeceres naqueles vastos cenários paleolíticos. A tomada de consciência que resultará no tal salto evolutivo, quiçá motivada por uma qualquer força extraterrestre (aqui a ficção não terá necessariamente de ser tomada à letra), está na forma e na figura daquele que é porventura o momento mais clarividente e simbólico da história do cinema, aquele momento em que a primeira arma do homem é arremessada aos céus num grito-macaco dando lugar ao veiculo espacial em queda ascendente e que materializa uma outra distante conquista do homem ali descentrado num universo sem céu e sem horizonte.

Ao som do Danúbio, já o Planeta é um passado e encaminhados pela força magnética do misterioso Deus das estrelas já a busca pelos fundamentos fundamentais da raça humana impõe a Odisseia rumo ao desconhecido, para onde tudo começou e de onde tudo terminará um dia. No Espaço o diálogo é um acessório utilizado como instrumento que ajuda a perpetuar o mistério e cada movimento é um ícone soberbo de mestria composto de música e silêncio que nos eleva às profundezas da nossa estranheza. Tudo fica projectado sobre nós na forma desse bailado que ao longo da obra de arte vai lançando cada vez mais perguntas cujo fim não tem meio de devolver respostas lineares. Que força é essa que um dia nos deu a objectividade para cumprirmos as nossas capacidades mas que passados milhões de anos nos faz mover para o vazio mais obscuro sob o risco de nos mostrar a “verdade”? Que terror é esse o da infalibilidade electrónica e que, tal como nós, no fundo, apenas existe por se mover por objectivos maiores do que a própria sobrevivência? E como se define a sobrevivência num contexto onde todos os conceitos estão inquinados pelas expectativas materiais do intelecto intra-humano? 

Se a máquina serve para cumprir o desígnio imposto pelo próprio Homem, e se a confiança que lhe é programada para cumprir esse objectivo lhe dá a independência suficiente para no limite decidir sobre a vida humana, não será abusivo dizer que o momento em que o último sobrevivente desliga o supercomputador é de certa forma o momento em que ele desliga parte de si, aquela parte em que faz parte do processo de racionalidade de uma comunidade culta mas que à distância de milhares de anos está muito longe da verdade oculta que está para lá do entendimento do cosmos. Será pois a partir desse momento, que desta forma o homem regressa às origens, a um estado primitivo, sozinho e entregue ao destino que ali, já longe de 2001, vai-se concretizar na última viagem por um caminho de psicadélica glória, para lá do infinito e com todo o esplendor full of stars, rumo ao conforto da casa de Deus, pois não será de outra coisa aquele misterioso lugar onde o tempo avança para a morte à medida que quase simultaneamente já o corpo renasce para um presente final.


Na revisitação que fiz a 2001: Odisseia no Espaço, vejo agora claramente que este filme representa aquilo que define a Sétima Arte como extensão plena da pluralidade individual de nós mesmos. Qualificá-lo está longe de ser uma opção baseada no gosto ou na preferência de cada um. Este é o filme maior e o filme universal, obra-prima suprema em termos técnicos e onde as suas formas narrativas são feitas dos mais implacáveis e aterradores enigmas cujas soluções não existem à dimensão a que conseguimos vulgarmente colocá-las. Esta Odisseia de Kubrick é o Júpiter, impossível de habitar ou ser comparado ou igualado com outra coisa qualquer que conheçamos. É, enfim, o produto acabado em movimento eterno e a representação perfeita daquilo a que podemos considerar um cinema de todos como património comum da nossa globalidade e insignificância no Universo.

dezembro 01, 2013

Os Zombots (1/2)

Frankenstein's Army pode ser mais um daqueles filmes feitos na base da diabolização nazi, é verdade. É mais um desses filmes que usa a temática do reich extra-terrestreal, do reich experimentalista da desumanidade e que usou e gozou de inefáveis meios para praticar a sua infâmia no contexto da guerra contra os soviéticos e na eliminação dos judeus. Isto é verdade e este aparece sendo mais um filme desses. Mas quando pensamos que a temática possa estar gasta, aparecem casos como o deste filme e que fazem prova de que com um pouco de imaginação consegue chegar-se sempre mais longe. O filme em si não é grande coisa e suporto-me sobretudo à representação e à forma como a acção vai sendo desenvolvida, mas a verdade é que não deixa de ser fantástica esta ideia de um Dr. Frankenstein nazi que nos confins do território e dos últimos dias da segunda grande guerra puxou dos seus galões steampunk criando autênticos guerreiros das trevas automatizados para destruir os inimigos.
Pois são estas criações demoníacas que fazem a história neste filme e que criam o ambiente todo e por isso mesmo merecem aqui a sua reprodução através do art work.
O culto é feito destas coisas, os Zombots.









novembro 12, 2013

Uma imagem sem o filme


Que xadrez é este, Bergman? Qual aquele oceano e onde fica este paraíso de pedras? Mas que silêncio infinito guardará o silêncio destas peças? É estranho ver uma imagem de um filme sem saber qual o contexto, sem ter visto portanto o filme e tão pouco do que fala. O Sétimo Selo. Sempre me intrigou este título. Dizem que é uma obra-prima como quase todos os filmes do mestre, não duvido, mas não conheço, este e certamente muitos outros e também a verdade é que quanto mais se conhece a realidade mais longe estamos de conhecer tudo, seja tudo o que for, mesmo que seja nada ou a simples aparência da insignificância mais vaga e abstracta. Não será isso propriamente mau se for consciente a afirmação dessa condição e não feita puramente assente na deriva material do materialismo que nos aproxima uns dos outros e que nos dá tanto conhecimento mas que no fundo desvirtua a base elementar da convivência com o silêncio da natureza, da viva à mais morta e da nossa própria.
Quero pois olhar para esta imagem e sentir que através da sua configuração intelectual consigo atingir o estado espiritual térreo que preciso para interpretar as coisas simples. Pois hoje é dia de ser mais um dia simples, um dia em que estou farto deste ruído agreste que vem de fora. Hoje não quero ver imagens em movimento, não quero ouvir nada que não venha da minha cabeça e só quero imaginar que a minha única virtude é ser um ser que só se concretiza parando o movimento das coisas sem querer saber do resto. Hoje é o dia para visitar a minha ignorância sobre as coisas e apelar ao meu espírito de aventureiro desventurado que se perdeu no caminho da razoabilidade.
Será esta imagem a afirmação da racionalidade do homem através do movimento tabular sobre as coisas naturais? Serão estas as linhas com que se desenham os contornos do dialéctico mental versando à soberba humildade etérea da terra? Pensando bem, eu não quero respostas para esta imagem, muito menos procuro as respostas do autor que as concebeu. Só quero olhar para ela para sempre e não perceber nada da vida ou tentar esquecer que percebo alguma coisa dela, porque é não percebendo que eu neste momento sou completo e que sou útil à sociedade. É assim que eu agora sou e talvez é sendo desta forma que consiga melhor compreender o fundamento deste jogo da razão no confronto directo com o painel cinzento dos sentimentos. 

novembro 02, 2013

Polaroid Tarkovsky (1/4)

Realizador de alguns dos filmes mais marcantes do século passado, Solyaris ou Stalker de entre outros, Andrei Tarkovsky foi também um aficionado da fotografia Polaroid. Em 2006 foi publicado precisamente um livro que reuniu essas imagens tiradas pela Polaroid do realizador russo. Durante este mês proponho trazer aqui algumas dessas fotografias.





outubro 29, 2013

A gravidade depois de 2001

Gravity vai ficar marcado em mim como a melhor experiência em sala de cinema que já tive. No final, fiquei com curiosidade para saber se a versão normal traria o mesmo tipo de sensações e conclusões que aquelas vistas e tiradas naquele ecrã gigante, pois é inegável que a sala IMAX do Colombo proporciona uma experiência física diferente que, a meu ver, permite aproximar o espectador daquilo a que este filme se propõe. E quando falo em aproximar é quase no sentido literal do termo.
Em termos visuais, Gravity é um espectáculo colossal e magnânimo fazendo justiça ao extremo clima espacial. O trabalho na profundidade dos planos e a noção de velocidade na deriva, quer nas situações mais controladas ou nas mais descontroladas e aliado à forma como se encaixam os sons e a música está feito de forma notável. Não fossem as punch lines comercialoides da personagem de Clooney ou a necessidade de preencher o silêncio com outras linhas de diálogo desnecessárias e estaríamos aqui perante um filme maior, possível de chegar perto de 2001 já que é com este que se pode estabelecer alguma espécie de paralelismo, em termos estéticos e na fidelidade ao real do Espaço, claro.
Sendo verdade que em termos narrativos tudo aquilo que tem vindo a ser feito na ficção científica, incluindo este Gravity, continua a estar a anos-luz de 2001, ainda assim os aspectos da estória deste filme são abordados de uma forma que, à órbita e no olhar sobre a “mãe azul” e sob a infinitude espacial, atingem um inevitável nível filosófico que acaba por estar bem conseguido. Se a origem do Homem está naquele vazio tão total e complexo, é pois confrontado com esse vazio que o Homem acabará por encontrar as respostas mais simples para a sua sobrevivência. O desfecho é categórico nesse sentido, pelo que foi então na situação-limite da mais perfeita e derradeira solidão e na eminência do silêncio eterno, que Ryan Stone teve a epifania da sua vida que lhe permitiu no final ganhar de novo a gravidade.

outubro 28, 2013

A cena do chuveiro

Neste espaço onde pretendo trazer algumas das cenas de cinema que considero mais memoráveis estarão com certeza muitas daquelas que nos vêm logo à memória e que correspondem a filmes que marcaram a história. A recuperação de certas cenas será então um cliché ou mais um apontamento de banalidade dada a popularidade dessas imagens, não nego isso. Mas por outro lado nunca é demais rever e relembrar esses momentos, muitas vezes feitos de simplicidade, frutos do fait diver, feitos sem o propósito de tornar memorável, não mais sendo do que pedaços que complementam uma narrativa.
Neste caso relembrar a cena do chuveiro em Psycho é mais do que um cliché. Mas na perspectiva da análise e estudo da mecânica cinematográfica, esta revisitação é seguramente uma obrigação.

outubro 21, 2013

Têm sido tempos fortíssimos


Setembro e Outubro vão ficar marcados por alguns acontecimentos importantes no universo das séries televisivas. Foi nesta altura que terminaram duas das séries mais emblemáticas de todos os tempos. Dexter e Breaking Bad. Dexter é um claro exemplo de perda de qualidade ao longo das longas temporadas, cujo finale acabou por dar o devido seguimento a este facto. Ainda assim essa perda de qualidade e a desilusão pela forma como acabou a história não apagam o mérito de uma das mais importantes séries já feitas cuja personagem Dexter ficará para sempre na memória. Já Breaking Bad assumiu-se desde o primeiro episódio até ao último como a melhor série dramática de sempre. Penso que o segredo para o sucesso de Breking Bad esteve na forma como conseguiu transmitir ao espectador uma espécie de mixed feelings face à personagem principal. Walter White era um fabricante de droga, o que por si só lhe daria um carácter detestável, mas a sua personalidade, o drama que ele vive na sua vida e a forma como ele se envolve no meandro do fabrico e tráfico, os mal entendidos, o sentido de justiça e outras diversas tropelias mais ou menos constrangedoras feitas com um bom sentido de humor fizeram desta personagem e desta série uma das favoritas e mais amadas e admiradas. 
Se em Setembro chegaram ao fim algumas das melhores séries, em Outubro já começaram outras que não ficarão muito atrás das duas que referi e que terminaram em setembro. Não sou pessoa viciada em séries pelo que prefiro pensar que só vejo aquelas que valem a pena, do alto do meu sentido critico…Homeland, American Horror Story e The Walking Dead são os meus destaques. Homeland mostrou também desde cedo ser uma série de qualidade, uma série que se propõe a penetrar fundo no tema da ameaça terrorista e que não tem medo em abordar a problemática dos vários poderes e interesses políticos que estão por trás desse combate. American Horror Story desperta sempre a curiosidade movida pela primeira temporada, francamente de boa qualidade num segmento sempre difícil de agradar como é o do terror. E The Walking Dead, talvez a série que mova mais fãs a par de Game of Thrones, e que marca a diferença num tempo imerso em muito ruido zombie. 

outubro 19, 2013

Anónima noite das bruxas (1/2)

Os Planos Perpétuos entram a partir de hoje em modo Halloween e no out of box são aqui revelados até ao final do mês, uma série de retratos tirados entre 1875 e 1955 de gente anónima a propósito dos festejos da noite das bruxas, fotografias essas que estão compiladas no livro Haunted Air de Ossian Brown, obra apadrinhada por David Lynch que escreveu a sua introdução.
O detalhe e o terror de algumas máscaras fazem com certeza inveja a muitos dos vilões mascarados que assombram o nosso imaginário. Por agora aqui ficam alguns retratos individuais sendo que para a próxima semana trarei as fotografias familiares.





outubro 15, 2013

Ainda há bons filmes sobre o desporto

Filmar o desporto para cinema tem-se revelado num exercício muito difícil para os realizadores que optem por pegar nas histórias e momentos da história desportiva mundial. Independentemente do financiamento ou se se tratar de biografia ou ficção, se formos a fazer uma análise fria ao produto final apercebemo-nos que os resultados são geralmente sempre fracos. Não falo com certeza de tudo aquilo que gira em torno do desportista, ou seja, todos os dramas ou subdramas relacionados com a história da personagem ou personagens principais, que, verdade seja dita, neste tipo de filmes são normalmente postos num plano muito melodramático demais, tornando muitas vezes o atleta num super-herói dos tempos que em certa medida o é, mas a isso se deve uma explicação mais profundamente sociológica que nunca cabe num filme de cinema. Mas a minha constatação incide mais sob a forma como se filma o sport em si, a acção no terreno da modalidade e é inegável a dificuldade em captar esses movimentos, excepção feita aos desportos de ringue, como por exemplo o boxe, onde aí encontramos filmes como Touro Enraivecido ou Rocky. Talvez a isso se deva o facto de o ringue ser um espaço mais curto. Veja-se por exemplo a forma como Clint Eastwood conseguiu captar o desporto em Million Dollar Baby mas depois em Invictus falhou redondamente a filmar Rugby. Isto não é uma crítica, é sobretudo a constatação com base numa opinião.
Isto leva-me a Rush e ao elogio a Ron Howard. A Formula 1 é um desporto que se distingue de outros por ser motorizado, mas ainda assim estou certo que não será fácil fazer um filme sobre F1 que consiga imprimir e transmitir toda a velocidade e som dando-lhe o realismo certo que faça justiça a este desporto. E neste filme Ron Howard consegue dar à pista e aos carros todas essas características fazendo um filme bem centrado e que não se perde nos tais excessivos melodramas. O focus do filme está na corrida e na rivalidade entre dois pilotos que marcaram uma geração, no eterno duelo entre o coração e a razão, a paixão e a mecânica. Sendo estes ingredientes excelentes para se fazer um filme que prende o espectador, Howard mostrou uma preocupação em dar verdade ao realismo e usou também em doses muito moderadas o enquadramento mais intimo de Lauda e Hunt não sendo preciso mostrar muito do lado pessoal destes dois pilotos para percebermos qual o papel deles na história e qual o impacto que isso teve na forma como encararam as corridas e como construíram as suas carreiras.